February 21st, 2008 by
Paulo Lima

“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se havia passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.”
Fernando Pessoa (citado em Carnavais, Malandros e Heróis, Roberto DaMatta)
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January 7th, 2008 by
Paulo Lima
Lendo agora o Jorge Cordeiro no Escriba, vi que ele se amarrou no Meu Nome Não é Johnny. Verei!
Falando de cinema, eu já estava numa “situação de cinema” em relação ao “A culpa é do Fidel“. A história do “situação de cinema” é meio recorrente no meu pensamento. Alegre e jovem e bolsista da Aliança Francesa descobri o “En sortand du cinéma” do Roland Barthes. Um texto curto falando da responsa que é sair de uma sala de cinema e cair dentro “criticando” o filme recém assistido. Naquela época eu traduzi o texto, que não é grande (mas é genial, de 1975). Agora não acho nem o original na internet, nem no google francês… Em rápida pesquisa se constata que o texto é citação frequentíssima e agora só tenho um fragmento dele na cabeça. Fragmento que não sai da cabeça sem cabelo quando saio do cinema. Ontem, quando saí do “A culpa é do Fidel” a sensação foi um pouco mais forte. Tava com a Patrícia que sabe muito mais de cinema que eu e minhas palavras estavam mais pensadas que normalmente. Depois o filme acabou jogando meio forte com as memórias de quem viveu — de rebarba — a porra louquice dos 70, criança. Eu parei de escrever sobre cinema, me levando a sério, tempos idos. Hoje digo, com gosto: que bom que a culpa é do Fidel! Vê lá e presta atenção na cena deliciosa das crianças dentro do carro com napalm, guerra nuclear, barbudos, Allende, Franco e, por fim, o Papai Noel.

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December 20th, 2007 by
Paulo Lima
Meio dormindo, rádio ligado, ouvi a história do dentista preso acusado de matar seu psicanalista. Depois dormi de novo. Acordei e, ainda meio dormindo, reencontrei o Transferência Mortal, um romance policial do excelente Jean Pierre Gattegno. A história, com um ritmo bem intenso, narra uma trama parecida, numa fria, charmosa e perigosa Paris. Já pode se ler um monte de teoria sobre o assassinato mas pensar que isso não é literatura é bem ruim. Mas o livro é uma boa recomendação, o cara stressa o que pode passar na cabeça de um psicopata de uma forma impressionante.
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December 17th, 2007 by
Paulo Lima

Outra boa notícia. Editora nova na área, a PTK Livros, do Tiago Petrik. Clica aí na foto e aparece lá, patrocínio da Cachaça Montanhesa… Jogou pesado comigo, logo agora que eu tinha parado de beber…
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December 12th, 2007 by
Paulo Lima
Agora é a hora do Rio de Janeiro. André Ribeiro, grande escritor e pesquisador do futebol lançará por esta bandas seu último livro, “Os Donos do Espetáculo”. Além de ouvir um cara muito divertido, contador de histórias (mineiro) de alto coturno, com certeza encontrará pessoas que gostam da melhor tradição da imprensa esportiva brasileira. Te vejo lá! Clique na imagem e veja o convite:

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December 7th, 2007 by
Paulo Lima
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38 - BEM NO FUNDO
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
In: 50 poemas - Paulo Leminski
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November 19th, 2007 by
Paulo Lima
A insônia pode ser criativa. Em especial num feriado nunca tão longo para um preguiçoso. Pequeninos contos, sem conclusão. Como é bom escrever contos sem conclusão. Com memórias de cidades e com a curiosidade.
“O encontro foi silencioso. Museu Torres Garcia, Montevideo. Bastante frio e algum vento, ainda mais frio. O vinho, um Tannat já mais evoluído, cumpria seu papel. A simpatia desinteressada dos diplomatas instigava a provocação e algum cinismo. Todos precisavam passar o tempo. Evitar a angústia daquela noite fria, mais uma noite de solidão e insônia. Montevideo é uma cidade difícil para o estrangeiro que precisa viver algum tempo lá e fazer de conta que está contente. É linda mas tem alguma coisa que não se compreende — pelo menos na minha idade — uma vontade forte de ir embora e, longe, falar de como são boas as coisas de lá. A água, a qualidade do debate político, o cansado tema do maracanazo e o olhar triste e distante dos jovens.
Estava com as cartas e havia prometido deixá-las lá, num dos cômodos do Museu. Conhecia a agenda de atividades e sabia quem seria convidado para outro convescote no dia seguinte. Ventava. O Rio parecia ainda maior e o Tannat ainda melhor. Deixei as cartas. Dormi com raros sonhos com quem leria as cartas.”
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