onde eu nasci passa um rio
Paulo Lima
O Jardson é meu camarada. É comunicador multimídia. Faz rádio, jornal e escreve no blog de Suruacá. O Jardson é moço astuto. Gosta da Jana Figarella mas ela ainda não sabe disso. Jardson é daqueles que olha, olha, olha… observa e, quando fala, sempre vem um veredicto ou uma provocação inteligente. Ele mora em Suruacá, uma comunidade na beira do Tapajós. É dos caras que tocam o telecentro de lá. Funciona há mais de 5 anos, ininterruptamente. Daí eu quando vejo o Jardson online cutuco ele: “Jardson, escreve no blog de Suruacá, Jardson, não esquece o blog” e tal. Daí o Jardson, como só o Jardson faria, vem aqui neste blog e me provoca: “escreve aí, seu mala, que fica falando para eu escrever e não escreve nada”.
Então essa história me levou para outra história. Uma história que começa quando eu era alegre e jovem, ainda mais jovem que o Jardson. Eu era viciado, um pouco mais do que hoje, em radioamadorismo. Um grande amigo e vizinho, Luiz Eduardo Santa Clara de Castro era companheiro nessa brincadeira. A onda era falar com países distantes, depender de antenas, propagação e tal. Eu ia muito lá na casa dele. O Luizinho é meu amigo até hoje, compartilhamos a paixão pelo rádio e pelo meio ambiente. Ele é uma autoridade em “ecologia profunda”, eco-vilas e temas relacionados. É o PY1UFO. Também conhece um monte do tema ufologia mas isso é tema de outro post. O tema de hoje é sobre escrever. Então, de calça curta, como se dizia na minha época, ia na casa do Luizinho.
O pai dele, Luiz Claudio é uma conquista do Rio de Janeiro. Referência dos intelectuais mineiros na cidade, era naquele apartamento que se via com certa facilidade, Pedro Nava, Ziraldo, Fernando Sabino, o Tito Madi e até o Drummond, que era sujeito bastante arredio que ia lá e outros que minha memória se esqueceu. Uma vez tinha uma jam session lá com o Paulo Moura e seu clarinete de acrílico. O Luiz Claudio no piano. Eu era bem menino, uns 14 anos, no máximo. Daí comecei a escrever poesia e pequenos contos. Um dia, entre um papo e outro sobre radioamadorismo com o Luizinho entreguei um envelope com alguns textos para o Luiz Claudio. Ele me chama até hoje de Tatuí (que na linguagem do radioamador é o dono de uma estação muquirana). Eu entreguei os textos e fiquei muito ansioso mas, numa reação estranha, sumi da casa do Luizinho, talvez evitando conhecer a opinião (que pedi) do Luiz Claudio. Passado um tempo o Luizinho me chamou pelo rádio na casa dele: o Luiz Claudio queria falar com o Tatuí.
Rilke
Daí eu fiquei foi muito nervoso mas fui. A perna tremia. Será que serei escritor? O meu futuro para todo o sempre estava nas mãos do Luiz Claudio. Na época fazia bastante sucesso um LP (long play, o cd da época) chamado “Luiz Cláudio - Este seu olhar”. Tem uma música que eu não canso de escutar que é “Onde eu nasci passa um rio” do Caetano Veloso. Mas voltando ao papo, o Luiz Claudio chegou, ele era enorme na minha imaginação durante muito tempo. Há uns três anos estive com ele, aquele jeito bom, mineiro, aquele jeito dele, como poderia dizer o Luiz Gonzaga. Igualzinho ao jeito de quando eu era menino. A mesma voz afinada, o jeito receptivo da família, a vista da enseada de Botafogo. Mas naquele dia a coisa foi diferente. Ele chegou, solene, me devolveu o envelope como quem nem sequer mexeu e me deu um livro: Cartas à um jovem poeta, do Rainer Maria Rilke. Olhou para mim e minha cara de quem não entendeu a resposta e falou: “o Tatuí faz poesia em espanhol, até o Pedro Nava leu”. Nunca soube se é verdade se o Pedro Nava leu ou não. O que importa é que ele me respondeu com um livro. Mineiramente me disse tudo que achava importante sem me dizer nenhuma palavra. E eu aprendi.
Então, Jardson. O Rilke, o livro dizia, se escrever para você é importante, você não precisa saber se é escritor ou não, é uma necessidade sua. E onde eu nasci, deve passar um rio…
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December 11th, 2008 at 10:34 am
Que texto bonito!
Agora ouve aqui: http://www.mp3tube.net/musics/Tadeu-Franco-Onde-Eu-Nasci-Passa-Um-Rio/53279/
December 11th, 2008 at 3:40 pm
Eita Paulo! Muito legal!! Eu li para o meu pai e ele gostou muito dos comentários. Foi uma epoca marcante mesmo. Só um detalhe, o Drumond nunca foi la em casa, e sim meu pai foi na dele para entrevista-lo para um disco. O resto da turma que voce citou, realmente esteve por lá. O Drumond era muito mineiro demais pra sair de casa.rss.
Mas seus artigos são muito gostosos de ler. Eu tenho essa vontade de escrever, mas falta em mim um estado de espirito que já tive em algumas epocas e que vou tentar resgatar pra ver o que dá. É isso mesmo que a gente sente, vontade de escrever pra gente mesmo. Se lerem, que bom, se gostarem, melhor ainda. Tenho escrito coisas no orkut sobre os assuntos de permacultura e ecovilas. Nessa área eu me sinto bem motivado.
Quanto a sumidade em “ecologia profunda” foi muito profundo, rss, mas valeu pela força. Escrever é muito gostoso mesmo, assim como ler, e eu tenho um lado parecido com o seu que tem vontade de explorar essas
potencialidades, só não exercito muito, ainda…
Obrigado pelas citações mais uma vez e parabéns pelos seus textos.
grande abraço!!!
73s
PY1UFO
December 15th, 2008 at 9:49 am
Fale paulo!
Sacanagem, primeiramente só risos hehehehehhehehe…. vc é sensacional cara. O texto tá ótmo, bacana. Rapá sinceramente na minha leitura pra mim o seu texto era de Machado de Assis, Carlos Drummond e outras de nossa literatura, não tou inchendo a sua bola, sei que vc é um historiador rsrsrsr…
Vou crirar um blog pra mim e depois vc me dar uma força pra colcoar na rede, certo? Esses dias atrás eu tava pesquisando sobre as comunidade de atuação do P.S.A, de preferências as que já dispunham de Telecentros, encontrei muitos assuntos legais e foi justamente nessa pesquisa que eu achei o seu blog, com post da Rede Mocoronga, Teia Cabocla e mais…
Ah, já li também a canção de Caitano Veloso “ONDE EU NASCE PASSA UM RIO ” Pow, agora só tá faltando o som de barzinho da saudasa Jana Figarela no bar do Maricota.
Abraço pra te, boa semana…
Obs: lembrança da gata do rio pra ti, Ana Paula, acho que esse o o nome dela rsssrsr.
Inté
December 16th, 2008 at 2:07 pm
Que texto inspirado, Paulo Lima. Inspirador também. :))
December 17th, 2008 at 9:30 pm
Oi, Paulo:
Cheguei até aqui por indicação do Luíz Eduardo, e gostei do que li.
Admiradora confessa e profunda (é a palavra do momento !) do Luíz Cláudio, desde que era menina, adorei a história do mineiro de voz linda e doce que me encanta até hoje.
Também estou na turma dos que gostam de escrever, sabendo ou não, agradando ou não.
Voltarei para outras visitas.
Flora Maria