Num texto de grande fôlego, humildade na busca de citações para um intelectual do porte Sachs,
somos brindados com uma análise firme, crítica e, principalmente propositiva. Aos 82 anos Ignacy Sachs se debruça sobre a Amazônia e apresenta uma reflexão indispensável para quem vive por aqui e pensa o desenvolvimento humano da região. O texto foi originalmente publicado na versão brasileira do Le Monde Diplomatique. O texto é longo mas vale cada linha:
Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro
Se os mercados são incapazes de governar as sociedades, é hora de reinventar a política. Está nas mãos do Brasil uma oportunidade para preservar a floresta e oferecer vida digna a seus milhões de habitantes (texto-base para a conferência de 17 de novembro, em São Paulo)
Ignacy Sachs
(14/11/2008)
O próximo Fórum Social Mundial se reunirá em Belém, em Janeiro 2009. A escolha do lugar é altamente simbólica.
1. Somos todos amazônidas
Somos todos amazônidas, já que o futuro da nossa espécie no planeta Terra dependerá, em boa medida, do destino que será dado à floresta - grande dispensadora de climas e reguladora do regime hídrico, além de deter uma riquíssima biodiversidade. A Amazônia não é o Jardim do Éden nem o inferno verde descrito por seus fãs e detratores. O desmatamento da Amazônia deve parar, se quisermos realmente evitar mudanças climáticas irreversíveis e deletérias. Como bem diz Virgílio Viana, “não podemos assistir passivamente à história florestal da Mata Atlântica repetir-se na Amazônia” [1]. Ao mesmo tempo, devemos rechaçar categoricamente a idéia de transformar a Amazônia numa mega-reserva natural povoada por populações indígenas esparsas. E afastar o viés fortememente malthusiano da assim chamada “ecologia profunda”, para a qual a atual população humana é várias vezes superior à capacidade de carga da biosfera [2]. Faço minhas as palavras que abrem o livro de Mark London e Brian Kelly:
“Para preservar a Amazônia, é preciso tocá-la. Não se pode erguer uma cerca a seu redor para impedir a entrada das pessoas, nem expedir ordens de despejo para os vinte milhões que nela residem. Há que usá-la com cuidado nos locais em que é possível usá-la. E há que preservá-la nos lugares em que ela deve ser preservada. Ela não é nem um museu nem um terreno a ser indiscriminadamente devastado e desenvolvido sem critério” [3].
Cerca de 25 milhões de amazônidas vivem hoje na Amazônia brasileira, muitos deles em índices de miséria, que os transforma na espécie mais ameaçada, como diz o poeta Thiago de Mello. Esse escândalo deve parar e havemos de pensar a Amazônia do futuro, com 30, 40, 50 milhões de habitantes prósperos. Sem nos descuidar da manutenção em pé da floresta existente.
Somos todos amazônidas, sem que isto justifique a internacionalização da Amazônia. Bem ao contrário, o porvir da Amazônia é responsabilidade e, direi, privilégio da Nação brasileira. Caberá a ela, no seu próprio interesse e no de toda a humanidade, colocar a Amazônia na rota de desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente includente, transformando-a num laboratório pioneiro das biocivilizações do futuro.
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