C’est ça!

sobre a direção do tempo

October 9th, 2007 by Paulo Lima

“tempus aevi imaginem” (0)

Estava preparado para um importante e definitivo debate com o Saliel. A discussão, ainda em aberto, seria sobre o tempo, no Caçador, segundo lar de Saliel. Kant, com um vento forte no quarto, caiu sobre minha cabeça. Tive sorte, era uma brochura que o citava. Kant, no ímpeto de me fornecer boa argumentação, indicou-me a necessidade de revisitar a Crítica da Razão Pura. Sei que muitos são os especialistas em Kant, entre amigos inclusive, mas me permito, de maneira não mais que marota, relembrá-lo e provocar a real e necessária discussão sobre a vida. Cada dia é um dia a menos?

Kant

“Claro que o tempo é algo real, a saber, a forma real da intuição interna”(1).

Mas o próprio Kant lembrou, num rodapé no Apêndice do indispensável “Prolegomena a qualquer futura Metafísica”, que há um tipo de conhecimento a priori associado com os sentidos. Ou seja, espaço e tempo são formas de intuição sensível. Importantes para a representação de coisas empíricas, como o teste. Dizia um especialista que:

“qualquer objeto da experiência precisa ser representado em espaço e tempo. A geometria é a ciência do espaço e a aritmética a ciência do tempo, e suas proposições são verdades necessárias relativas aos objetos no espaço e no tempo. Enfim, nós raciocinamos sobre as condições de representação, e a intuição intelectual torna-se dispensável. No entanto, fora do espaço e do tempo elas não são absolutamente necessárias. (2)

Mas, sobretudo concordo com Berdiaeff: “O tempo cósmico é calculado matematicamente sobre o movimento de rotação em torno do sol. Com ele se estabelecem os calendários e os relógios. Ele é simbolizado por um turbilhão. O tempo histórico está como que encaixado no tempo cósmico e se pode contá-lo matematicamente por dezenas de anos, por séculos, por milênios. Nenhum fato, porém, pode nele se repetir. Está simbolizado por uma linha dirigida para o futuro, para a novidade. O tempo existencial não se calcula matematicamente. Seu curso depende da intensidade com a qual se vive nele, depende de nossos sofrimentos e de nossas alegrias”(3)

Se o tempo é, pois, algo que não se calcula e sequer se pode, concretamente sentir, ele não caminha ordenadamente, cartesianamente ou sequencialmente. Razão pela qual termino minha colaboração à tão importante questão com o Padre Antônio Vieira:

“Nem todos os anos que passam se vivem: uma coisa é contar os anos, outra é vivê-los”

E esse ano eu não vivi.

0 - Apuleio: o tempo é a imagem da eternidade.

1 -Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura

2 - McTaggart, John Ellis: The Unreality of Time

3- Nicolas Berdiaev ou Berdjaev ou Berdiaeff (Nicolaï Aleksandrovitch)

Posted in blogs, filosofia |

3 Responses

  1. saff Says:

    > E esse ano eu não vivi.

    o que um sujeito não faz para fugir do imposto de renda.

    –saff

  2. mais espaço para o tempo | Um dia a menos Says:

    [...] tempo é também tema de profunda discussão filosófica no nosso sítio co-irmão, o steganográfico C’est ça. A coisa lá é de qualidade, confira. [...]

  3. Missionario Says:

    Pois é, Paulo, eu liguei pra casa dele justamente quando ele tinha saído pra te encontrar. E ultimamente a minha senhôra tem estado às turras com Kant, Hegel, descendentes e dissidentes em geral. Coincidências sempre!

    Devemos ir ao Rio na época do Natal, eu aviso sim

    Abraço

    Z

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