sobre a direção do tempo
“tempus aevi imaginem” (0)
Estava preparado para um importante e definitivo debate com o Saliel. A discussão, ainda em aberto, seria sobre o tempo, no Caçador, segundo lar de Saliel. Kant, com um vento forte no quarto, caiu sobre minha cabeça. Tive sorte, era uma brochura que o citava. Kant, no ímpeto de me fornecer boa argumentação, indicou-me a necessidade de revisitar a Crítica da Razão Pura. Sei que muitos são os especialistas em Kant, entre amigos inclusive, mas me permito, de maneira não mais que marota, relembrá-lo e provocar a real e necessária discussão sobre a vida. Cada dia é um dia a menos?
Kant
“Claro que o tempo é algo real, a saber, a forma real da intuição interna”(1).
Mas o próprio Kant lembrou, num rodapé no Apêndice do indispensável “Prolegomena a qualquer futura Metafísica”, que há um tipo de conhecimento a priori associado com os sentidos. Ou seja, espaço e tempo são formas de intuição sensível. Importantes para a representação de coisas empíricas, como o teste. Dizia um especialista que:
“qualquer objeto da experiência precisa ser representado em espaço e tempo. A geometria é a ciência do espaço e a aritmética a ciência do tempo, e suas proposições são verdades necessárias relativas aos objetos no espaço e no tempo. Enfim, nós raciocinamos sobre as condições de representação, e a intuição intelectual torna-se dispensável. No entanto, fora do espaço e do tempo elas não são absolutamente necessárias. (2)
Mas, sobretudo concordo com Berdiaeff: “O tempo cósmico é calculado matematicamente sobre o movimento de rotação em torno do sol. Com ele se estabelecem os calendários e os relógios. Ele é simbolizado por um turbilhão. O tempo histórico está como que encaixado no tempo cósmico e se pode contá-lo matematicamente por dezenas de anos, por séculos, por milênios. Nenhum fato, porém, pode nele se repetir. Está simbolizado por uma linha dirigida para o futuro, para a novidade. O tempo existencial não se calcula matematicamente. Seu curso depende da intensidade com a qual se vive nele, depende de nossos sofrimentos e de nossas alegrias”(3)
Se o tempo é, pois, algo que não se calcula e sequer se pode, concretamente sentir, ele não caminha ordenadamente, cartesianamente ou sequencialmente. Razão pela qual termino minha colaboração à tão importante questão com o Padre Antônio Vieira:
“Nem todos os anos que passam se vivem: uma coisa é contar os anos, outra é vivê-los”
E esse ano eu não vivi.
0 - Apuleio: o tempo é a imagem da eternidade.
1 -Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura
2 - McTaggart, John Ellis: The Unreality of Time
3- Nicolas Berdiaev ou Berdjaev ou Berdiaeff (Nicolaï Aleksandrovitch)
Posted: Outubro 9th, 2007 in blogs, filosofia.
Comments: 3
Comments
Comment from saff
Time: Outubro 9, 2007, 9:37 pm
> E esse ano eu não vivi.
o que um sujeito não faz para fugir do imposto de renda.
–saff
Pingback from mais espaço para o tempo | Um dia a menos
Time: Outubro 11, 2007, 7:12 pm
[…] tempo é também tema de profunda discussão filosófica no nosso sítio co-irmão, o steganográfico C’est ça. A coisa lá é de qualidade, confira. […]
Comment from Missionario
Time: Outubro 11, 2007, 9:42 pm
Pois é, Paulo, eu liguei pra casa dele justamente quando ele tinha saído pra te encontrar. E ultimamente a minha senhôra tem estado às turras com Kant, Hegel, descendentes e dissidentes em geral. Coincidências sempre!
Devemos ir ao Rio na época do Natal, eu aviso sim
Abraço
Z




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