Vizinhança
Acima de tudo sou um estudioso. Estudo as coisas que me interessam a fundo, enquanto me interessam. Durante 4 anos acompanhei a vida da Mansão da Rua São Clemente com Guilhermina Guinle e Dona Mariana: O Palacette Linneu de Paula Machado. Magnífica residência senhorial, em estilo renascentista francês, construída em 1910 para a família de Linneu de Paula Machado pelo arquiteto Armando da Silva Telles, o mesmo projetista do Palácio Laranjeiras. Destaca-se pela implantação, ao centro de um amplo terreno gramado e fartamente arborizado, o qual ia originalmente até a Rua Voluntários da Pátria. É notável a elegante porte-cochère aterraçada, o telhado em mansarda e torreão central em ardósia. Uma ala de serviço, do lado direito da casa, foi acrescentada posteriormente, mas obedecendo ao estilo original e ainda em vida de seu primeiro proprietário. O Palacete Linneu de Paula Machado é tombado pela Municipalidade.
Tinha uma vista privilegiada sobre o Palacete de oito quartos, três grandes salões, biblioteca e salá de chá. Não posso, claro, descrever o que vi. Sou um pesquisador discreto e de pequenas perversões, não quero fazer dinheiro com minha capacidade de observar e, sobretudo, de escutar. Mas o melhor estava fora. Um jardim muito agradável, com horta, algumas estátuas sem grande valor e uma piscina medíocre, para as dimensões da residência. Era uma casa dos Paula Machado e Guinle. Quando o Hugo era pequeno eu, que morava alí na Francisco de Moura, embaixo do Morrão querido Dona Marta, ia de carrinho e passava várias manhãs de sábado lendo o jornal. Na época se lia o Jornal do Brasil e depois a Folha de São Paulo (para saber o que se passava no Brasil, no JB a gente sabia o que passava no mundo… tempo bom de um Rio de Janeiro cosmopolita). As vezes ia no Adriano, tomava uma batida de maracujá e almoçava. Não tinha baile funk. Hoje, eu sou vizinho do Paula Machado. Ele quer vender a mansão. Ontem teve baile funk ou coisa parecida até as 8 da manhã. Eu, insone, levantava, prestava atenção e o som tava lá, bombando.
Aquele telhado de ardósia sempre me chamou a atenção. A generosidade da família de abrir as portas para quem quisesse usar o jardim também. Morava lá o Seu Eduardo, pelo que me lembro. Morreu tem uns anos. Agora está a venda. Então, se você quiser ser meu vizinho e reabrir os jardins do Palacete é só colocar cinquenta milhões de reais. Eu dou fé! Se eu tivesse, não pensava duas vezes. Aquilo lá ia ser uma diversão!
Posted: Julho 8th, 2007 in rio de janeiro, arquitetura, Uncategorized.
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