Sal
bandolo
“Essa hora que pode chegar alguma vez fora de toda hora, buraco na rede do tempo,
essa maneira de estar entre, não por cima ou atrás, mas entre,
essa hora orifício em que se acha acesso ao abrigo das outras horas, da incontável vida com suas horas de frente e de lado, seu tempo para cada coisa, suas coisas no preciso tempo,
estar num quarto de hotel ou numa estação, estar olhando uma vitrina um cão, acaso
tendo-te nos braços, amor sonolento de sesta, entrevendo nessa mancha clara a porta entreabrindo-se para o terraço, numa rajada verde a blusa que tiraste para me dar o leve sal que treme em teus seios,
e sem aviso, sem desnecessárias advertências de passagem, um café do bairro latino ou na última sequência de um filme de Pabst, um apoio para o que já não se ordena como deus manda, acesso entre duas ocupações instaladas no nicho de suas horas…”
Prosa do Observatório, Cortázar, 1972

Posted in literatura |
No Comments »

