Cena Carioca
bandolo
Dia difícil. Consulado do México, 6h45. Você sabia que tem que tirar visto para ir ao México? Pois é. E o pior é que são trinta senhas por manhã. Fui quatro dias seguidos, no primeiro 9h30, no segundo 8h30, no terceiro 7h30 e, hoje, 6h45… Quem me conhece sabe o quanto amo atividades essa hora do dia. Mas quase não dormi e noites em claro não matam ninguém. Achava que estava numa maré de má sorte. A manhã comprovava isso. Peguei a senha 25 mas várias pessoas de mais idade, com as senhas 26, 27, 28, 29 e 30, foram atendidas com a merecida prioridade. Isso em pé, na frente do prédio, na praia de botafogo. Nem um banco por perto e o segurança tirando quem sentava na entrada do prédio. Um divertimento… Deu 11h, estavam na senha 21 e veio a informação, o sistema tá fora do ar… no México! Que maré. Daí faltou cópia… saí de lá 13h. O dia prometia mais aborrecimentos, não é o que lhe parece?
Mas outras emoções estavam guardadas para este que escreve feliz e faceiro no momento. Como é bom escrever feliz e faceiro. Chego no trabalho, olho as prioridades no correio eletrônico e direto para o Bismarque, na São Clemente. O tradicional e familiar restaurante português dos amigos Marques (bis marques… trocadilho idiota que se completa com uma foto do velho Bismarque alemão ao fundo do estabelecimento). Reclamando da vida, do servilismo mexicano às ordens norte-americanas com o Ca, caminhávamos distraídos na bela tarde na cidade maravilhosa. Quando atravessávamos a São Clemente na esquina com a Barão de Lucena (alí mesmo, Casa de Rui Barbosa, cuja estátua quase se move para ver o que passava atrás de si), veio o carro, com uma sirene ligada e entra na contramão na São Clemente. Do carro sai um cara com olhar de ódio e arma em punho, na nossa direção gritando: “Perdeu! Perdeu moleque! Você sabe porquê!”
Sequer deu tempo de pensar nos meus pequenos delitos. Fiquei parado, com as mãos para cima achando que era eu o moleque que havia perdido alguma coisa. O Ca andou alguns passos de lado e voltou, sei lá se preocupado comigo (grande cara!). O cara armado passou por nós dois e prendeu um meliante que estava na calçada. O que me impressionou (ainda de mãos para cima) é que o policial civil, de bermudas e com umas três pistolas, não imaginou o que podia passar alí se o meliante (suponho que seja um meliante) estivesse armado e reagisse. Eu e Ca possivelmente teríamos tomados uns tecos, mas não só nós, dezenas de pessoas, estudantes, pessoas que estavam indo para o almoço, etc. Gastei uma vida hoje ou ganhei um bônus. E eu achava que tava sem sorte…
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